CNH: Um documento sem valor

  • André Jordão

    Afogados da Ingazeira é uma cidadezinha no interior de Pernambuco, distante 380 km da capital Recife. O Censo de 2010 informa que o município tem uma população de 35 mil pessoas. Cerca de 15% dos afogadenses usa a motocicletas como meio de locomoção. Por lá rodam mais de 6.500 motos e motonetas, segundo dados do Ministério das Cidades.

    Na cidade pernambucana, quem deseja usar a moto e seguir as regras de trânsito deve preparar o bolso. O custo de uma Carteira de Habilitação – categoria A (motos) é de R$ 598 (incluindo a taxa do Detran, que é de R$ 193). “São 20 horas de aula práticas e teóricas e depois tem que passar na prova”, informou a atendente da Auto Escola Pajeu, consultada pela Agência INFOMOTO. Levando em consideração o custo para a emissão do documento e o número de aulas, era de se esperar que a população de Afogados de Ingazeira estivesse apta a pilotar uma moto, mas não é o que acontece. Segundo o secretário Estadual de Saúde de Pernambuco, Antônio Carlos Figueira, “o município apresentou altos índices de acidentes”.

    Mas essa não é uma realidade que se aplica apenas a pacata Afogados de Ingazeira. Em São Paulo, por exemplo, o candidato a motociclista também enfrenta essa mesma realidade, porém muito mais dispendiosa. Na Auto Escola Pinheiros, Zona Sul da capital paulista, o custo para conseguir a habilitação é de R$ 850 com tudo incluído, inclusive as aulas práticas. Mas essas aulas são capazes de formar um bom motociclista? Segundo Magnelson Carlos de Souza, Presidente da Federação Nacional das Auto Escolas (Feneauto), o que mais preocupa é a formação do instrutor, segundo ele “muito abaixo do necessário”.

    A Abraciclo (associação que reúne fabricantes de motos) organizou III Workshop com o tema Década Mundial de Segurança de Trânsito. No evento, realizado em 18 de maio, especialistas abordaram vários temas, entre eles, a necessidade de mudança no processo de habilitação de motoristas e motociclista.

    Segundo Simiramis Lima, presidente do Conselho Estadual do Trânsito de Pernambuco, existe muito a evoluir no sistema de habilitação do futuro motociclista. “O que o aluno tem pela frente é um curso precário e um exame mal aplicado”. Segundo a especialista, é preciso que o Estado invista nesse processo para ter uma avaliação mais criteriosa e também maior fiscalização. Outro problema é a visão dos candidatos a motociclistas em relação a Carteira de Habilitação. “As pessoas querem a CNH, rápido e gastando pouco”, afirmou a presidente do Conselho Estadual do Trânsito de Pernambuco.

    Na prática o que temos é uma infinidade de pilotos despreparados para usar a moto de forma adequada em nossas ruas e estradas. Fora isso, em uma situação extrema a maioria não tem condições de realizar uma frenagem de emergência. Segundo Wilson Yassuda, coordenador da Comissão de Segurança Viária da Abraciclo, a Honda vendeu um milhão de sapatas de freio traseiro e apenas 100 mil da dianteira. Isso demonstra que o piloto brasileiro não sabe usar o sistema de freio de forma adequada.

    Wilson Yasuda também mostrou um croqui da pista usada para avaliar as condições do piloto. “Desde 1980, quando implantamos a primeira moto-escola no País, esse formato é o padrão de avalição. O piloto deve percorrer a pista se não errar durante o trajeto está habilitado”.

    Temos, então um curso caro e que não ensina a pilotar direito aliado a isso a falta de fiscalização do poder publico. O resultado é a falta de interesse do motociclista na obtenção da CNH.

    Em Afogados da Ingazeira consultamos a concessionária Tamboril (Honda) e ficamos sabendo que a maioria dos compradores não se preocupa com a Habilitação “quem compra moto pequena não tem CNH, mas diz que vai tirar em seguida” afirmou a vendedora. Mais uma vez existe um paralelo com São Paulo. O gerente da concessionária Yamais (Yamaha), que fica na Vila Maria, Zona Norte, informa que o comprador da região não se preocupa com a CNH.

    Informação confirmada pela secretária de Segurança Pública de São Paulo. De acordo com a entidade, em 60% das ações de apreensão de motos o condutor não é habilitado. Infelizmente, os números mostram que a falta de fiscalização, custo elevado e deficiência no aprendizado afastam o interesse pela CNH. Mesmo correndo o risco de sofrer as sanções imposta pela lei, o motociclista parece não dar importância à tradicional “carta”, que se torna a cada dia um documento sem valor.

    Fotos: Mario Villaescusa e Mário Bock/Divulgação

    Fonte:
    Agência Infomoto


    31,maio,2012 | alex | Sem Comentário | Tags:

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Ricardo Alex

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