Final frontier – Buell BR – Ushuaia 2012 – 4 Parte

  • Dia 07 – Trelew/Puerto San Julian: 810 KM

    Ontem, dia 21 de março, resolvemos durante o jantar que alteraríamos a programação original para darmos mais um “tirim de espingarda” (em mineirês, a referência a um tiro de espingarda é, em algumas regiões do Estado, um indicativo de distâncias a percorrer). No caso, o “tirim” seria de oitocentos e poucos quilômetros…
    De café tomado às 8:00 h, pegamos as motos e pé na estrada (no caso, pneus na estrada).
    O friozinho que fazia em Trelew foi aumentando na estrada. Na parada para o primeiro abastecimento 200 km adiante, todos tivemos que colocar roupas mais quentes. Ver a ginástica que o Sueden teve que fazer pra se encaixar nas segundas-peles e jaqueta e balaclavas foi uma diversão à parte.
    Daí seguimos tranquilos pelas retas imensas, abrigados do frio e no conforto dos pilotos automáticos que firmam a aceleração das Uly. Até que começou a ventar…
    Primeiro vieram umas rajadinhas na diagonal, empurrando mais no ombro direito e, claro, no capacete. Quando pegou o ventão lateral, aí as motos passaram a andar inclinadas mesmo, como um pêndulo. E um pêndulo porque literalmente se movimentavam, na inclinação, sempre que o vento encontrava alguma barreira, fosse um morro ao lado da estrada ou fosse uma das centenas de carretas bitrem que circulam nestas retas daqui. A ultrapassagem nessas condições exige muita atenção, pois quando você está sob a ação do vento a moto está inclinada; quando você entra ao lado do caminhão na ultrapassagem ele barra o vento, e aí você tem que acertar a inclinação da moto, senão ela te leva pra direita (e pro caminhão…); e quando você está terminando a ultrapassagem, saindo do alinhamento com a frente do caminhão, recebe aquela porrada do vento outra vez e inclina a moto de novo.
    À tarde, pegamos um trecho de serras, do qual também foi possível tirar boas lições. Pra mim, a maior delas foi de que é preciso se manter atento sempre, pois é o piloto quem tem que se adaptar às alterações das condições da estrada.
    Depois de trocentos quilômetros de retas e ultrapassagens a 120-130 km/h, encontramos a serra: pista boa, curvas de alta, e todo mundo de Ulysses. O primeiro pensamento? Êba!… Só que ao final da primeira descida havia um caminhão descendo a uns 15 km por hora, e o acostamento é de rípio… Aí, muita calma nessa hora, pé no freio traseiro e depois mão no freio dianteiro, diminuída suave, mas firme. Se o sujeito tá distraído ou ele cai ou entra no caminhão.
    Nesse trecho vimos também algumas lebres cruzando a estrada e muitos rebanhos de Guanaco.
    Vencidas as retas, as serras e o vento, chegamos com um belo entardecer à aprazível Puerto San Julian, na gelada Patagônia.
    Conseguimos um bom hotel e à noite visitamos um interessante museu, o “Nau Victoria”, que é uma réplica da embarcação com que os primeiros europeus chegaram naquelas terras, em 1520. Num restaurante próximo, jantamos e saboreamos um bom vinho argentino.
    E haja poder de síntese pra resumir tantas experiências numa viagem destas…
    By J. Bosco

    Dia 08: Puerto San Julian/Argentina – Duana-Chile/Argentina: 720 KM

    Acordamos animados e ansiosos para saber como será o trecho de rípio para atravessar o Chile, mas antes, registramos nosso trip “Os Quatro Cavaleiros de Ulysses” no livro de presença do hotel com o logo da viagem.
    Moto e motociclistas prontos, seguimos viagem para Rio Gallegos parada para abastecimento e pit stop. No posto quando já estávamos saindo, apareceu o único dono de Buell em Rio Gallegos que veio correndo atrás de nós depois que um amigo avisou ele que tinha 4 Buell no posto.
    Juan é o nome dele, tem uma XB12S e aproveitando o bate papo estava curioso para saber como estávamos fazendo para importar as peças da Buell, passamos nossos contatos para ele e nos despedimos dele sem foto, uma pena!
    Ficamos pensando como nossas motos ainda chamam atenção e fazem com que o único proprietário de uma Buell em Rio Gallegos saia correndo atrás de nós só para conversar conosco em horário de expediente.
    Prosseguimos viagem rumo Duana do Chile onde realizmos os procedimentos costumeiros e seguimos para atravessar o Estreito de Magalhães de balsa, algo em torno de 20 minutos.
    Ao desembarcarmos, prosseguimos viagem para Cerro Sombrero para abastecimento para iniciarmos o trecho de rípio, até agora o abastecimento mais caro do momento, simplesmente o dobro do preço da Argentina, mas diante do local, próximo ao El fin del mundo dá para entender.
    Enfim começamos o trecho de rípio, nos primeiros quilômetros fomos nos acostumando e gradativamente aumentamos um pouco a velocidade, mas sinceramente o trecho de rípio é perrengue, acreditamos que só não pegamos este trecho em pior situação porque não pegamos neve, tirando isso foi unanime que fomos sorteados com trechos em uma situação péssima, cheia de buracos pós chuva, caminhões e carros, fomos cautelosos, porém mesmo assim houve uma queda do Sueden que se assustou com um caminhão, nada grave, o Bosco ajudou a levantar a moto e foi identificado que a ferragem do bau teve avarias, mas nada que impedisse o prosseguimento da viagem.
    Dica: para quem não está acostumado com rípio, extrema cautela na mudança da trilha que os caminhões deixam porque é o ponto onde se concentram os rípios que não estão assentados ocasionando sustos que trilheiros conseguem tirar de letra que foi o caso do Dudu aos demais com certeza se não tiver calma e cautela o chão é inevitável.
    Foram 120 kms de rípio onde levamos 3 horas para atravessar em uma velocidade média de uns 40 km por hora. É possível fazer a uns 80kms porém requer um pouco mais de habilidade para controlar a moto que derrapa muito nesta velocidade quando temos que mudar de trilha.
    Após o susto do Sueden o pneu do Bosco murchou e paramos novamente para verificar a ocorrência e como não encontramos o furo, resolvemos por precaução injetar o reparador de pneu que resolveu o problema para prosseguirmos viagem.
    Na sequência a próxima ocorrência seria minha, com o excesso de trepidação devido aos buracos, ouvi um barulho de algo quebrando e percebi que a minha bolha tinha trincado no local onde vai o parafuso, resolvi prosseguir porque a noite não ia adiantar tentar consertá-lo, porém mais adiante, com o vento ele quebrou de vez e saiu voando… só deu tempo de abaixar a cabeça para não pegar em mim e por sorte não pegou na moto dos três que vinham atrás de mim.
    O Dudu que neste momento estava fechando o grupo resgatou ela e decidimos pensar no que fazer quando saíssemos do rípio.
    Terminamos o trecho de rípio por volta das 20:30hrs quando encontramos estrada pavimentada novamente e a Duana do Chile para entrar na Argentina para os procedimentos de troca de país.
    Chegando lá optamos por descansar e abastecer as motos, enquanto nós terminávamos o procedimento o Dudu foi à frente para abastecer a moto e encontrou um hotel e resolvemos ficar por lá mesmo e desistimos de Rio Grande que ficava a 80 kms, local modesto e simples que valeu a pena para recuperar as energias  e prosseguir viagem no próximo dia para o Ushuaia.
    No trecho deste dia também detectamos falhas nos cilindros na minha moto e na do Bosco e aí vai mais uma dica, nos últimos dias o Dudu pegou um dica de um amigo e compramos um aditivo para limpar os bicos injetores, estes que vendem até em supermercado, colocamos em nossos tanques no abastecimento e a moto voltou ao normal.
    Pontos importantes para este trecho:
    . andarem próximos para não se distanciarem muito com o objetivo de socorrer o amigo se algo acontecer;
    . cuidado com as mudanças de trilha deixada pelos carros e caminhões onde o rípio não está assentado;
    . prever que a estrada não esteja em boas condições e considerar pelo menos 3 horas no planejamento para avançar este trecho;
    . estar prevenido com reparador de pneus e compressor de ar;
    . treinar pilotagem em rípio se nunca pegou estrada deste tipo;
    . em hipótese alguma utilizar o freio dianteiro como é utilizado em estradas pavimentadas;
    Terminamos apreensivos mas orgulhosos por termos vencido mais uma etapa e nossas motokas terem superados este trecho sem grandes perrengues não contornáveis.
    Estou aqui finalizando o resumo do dia de ontem, no hotel Las Lengas, em Ushuaia, no saguão do hotel que é todo envidraçado que dá de frente para o porto com uma vista para o mar e as montanhas cobertas de neve e lá fora um vento frio congelante, mas feliz por termos alcançado o objetivo como planejamos!
    Amanhã postaremos o trecho de chegada para Ushuaia com mais fotos e mais informações.
    Iniciamos o nosso merecido descanso para recuperarmos as energias para o retorno.
    By Ito, Dudu, Bosco e Sueden
    Fotos: Dudu, Bosco e Ito

    22,abr,2012 | alex | Sem Comentário | Tags:, ,

Sobre o Autor

Ricardo Alex

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